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O Energúmeno

Outside is the side I take


Sexta-feira, 19.04.13

Dentes e língua, ao mesmo tempo.

Os últimos dias têm sido de espectativa – a tensão de quem espera más notícias.

Os portugueses parece que chegaram a um ponto de dormência. 

Durante a tarde de quarta desenrolou-se rapidamente a novela “A culpa é do outro” com que Seguro e Passos Coelho têm brindado os cidadãos, achando que os distraem, quando na realidade os irritam. Até mesmo os mais distraídos já perceberam qual é a posição deles: Passos Coelho quer comprometer o PS com as decisões desagradáveis que tem de tomar para satisfazer os credores, Seguro quer ficar o mais longe possível dessas decisões. A irritação nos arraiais vem da percepção que os interesses partidários deveriam ser postos de parte em prol de decisões de consenso entre os três partidos “do arco do poder” – neste particular é o PS que fica mais mal visto, ao aproximar-se da postura de intransigência que todos associam à esquerda radical.

 

Ainda quarta à noite, num frente a frente entre Catarina Martins (dos Martins bloquistas) e José Eduardo Martins (do ramo social-democrata da família) o melífluo e sempre demoniacamente sorridente José Eduardo perdeu as estribeiras com a mantra de Catarina, “dizer não à troika”. “Porque não discutimos soluções possíveis, que interessam ao país?”, rugiu ele, “porque não pagar aos credores não é uma solução possível!”

 

Pouco antes, ao tecer considerações com Mário Crespo, o deputado chefe-de-fila madeirense, Guilherme Silva tomou a inusitada atitude de fazer soul searching. (Vindo de um mandatário de Jardim, é tão estranho como pouco credível.) Disse ele que os parlamentares não perceberam ainda que aquelas discussões na AR – especificamente entre Passos Coelho e Seguro – só irritam o eleitorado, que vêem nelas a ganância pelo poder e os jogos florais a sobrepor-se ao interesse nacional. “A geração anterior tinha essa noção. Acho que erramos na formação das jotas. Criamos uma geração que pratica política como uma luta partidária e não como a busca de soluções para o país.” Isto, dito por Guilherme Silva, faz pensar duas vezes. (Estamos a citar de apontamentos, pode não ser as palavras exactas.)

 

Do lado do PCP, sempre prenho de ideias frescas, Onório Novo lembrou que já há dois anos que eles dizem que vem aí o segundo resgate – e é para isso que o Governo está a preparar os trabalhadores. Do lado do BE, uma afirmação inédita: o Governo já não serve, deve demitir-se já.

 

Voltando a ontem à tarde, Seguro finalmente veio fazer as suas declarações, depois de reunir com Passos Coelho antes de almoço e a troika depois de almoço. Estrela Serrano, insuspeita no que toca ao PS, fez a análise:

 

Seguro começou com a leitura de um texto escrito, curto e sem novidades. Nas respostas alongou-se para além do adequado, o que prejudicou a exposição e a clareza das ideias. A única informação nova foi a de que a reunião com o governo “não apagou divergências entre PS e Governo e que também os encontros com troika não trouxeram “nada de novo, no essencial”.

Aliás, nos relatos das declarações de Seguro, os repórteres usam expressões como “Seguro deu a entender” ou “Seguro deixou perceber”, dando assim conta de que Seguro não quis falar do conteúdo concreto das reuniões com o governo e com a troika.

Ora, seria natural que Seguro informasse quais foram, em concreto, os assuntos tratados, que propostas foram feitas ao PS, qual a intervenção dos ministros que acompanharam a reunião, por exemplo, qual a justificação para a presença do novo ministro Poiares Maduro, porque é que Seguro não se fez acompanhar de membros da direcção, enfim, algo de substantivo sobre a reunião com o governo e com a troika. (O PS deveria cuidar melhor da preparação deste tipo de intervenções).

 

Fora do famigerado “arco do poder” o tema principal é, como não podia deixar de ser, o que o futuro nos trará. Mesmo os grandes protagonistas parecem acachapados com a perspectiva de mais castigo. Os parceiros da concertação social, que têm sido muito mal tratados pelo Governo, só pedem para ser ouvidos. “Os cortes não podem ser cegos” é uma expressão que caiu de tal maneira enraizada que já ninguém diz o substantivo, “cortes” sem o inevitável adjectivo”. Resta saber como é que se pode fazer cortes em grupos de milhares, até centenas de milhar, sem uma certa cegueira. Se for caso a caso, leva uns vinte anos. Mas temos a certeza que a violência vem por aí quando vemos Ricardo Salgado, esse desprotegido, a dizer que estamos no limite da espoliação.

 

Ontem de manhã, finalmente, ficou-se a saber quais as decisões do Conselho de Ministros. Os telespectadores também tiveram oportunidade de ver pela primeira vez Poiares Maduro em pose ministerial. As redes sociais não ficaram muito impressionadas. Para resumir dezenas de comentários, escolhemos este de um cidadão facebookista:

 

A cambalhota. Mudámos de governo de ontem para hoje, ou isto é só uma cambalhota dos pirilaus marotos (Gaspar e Coelho)? Estou a assistir à conferencia de imprensa do governo. Falam o novo ministro Maduro e o reciclado Marques Guedes. Até ontem, o governo do Gaspar e Coelho tinha um programa e um discurso: Que se lixe a Oposição e que se lixe a Concertação (social)! Só temos um rumo, só existe uma verdade! O nosso programa é a troika. Nós apertamos e vocês aguentam! Hoje, pela manhã, surge um novo governo, com Maduro e Guedes. Novo programa e novo discurso: Consenso, abertura a todas as forças sociais e políticas, em especial ao PS. Um programa de reajustamento das funções do estado a longo prazo. Vamos cumprir e respeitar integralmente as decisões do Tribunal Constitucional, vamos promover a equidade. Vamos estabelecer em consenso com – mais uma vez – com os parceiros sociais e o”principal partido da oposição” – uma agenda para o crescimento e o emprego. Existe a maior abertura. Juntem-se a nós. O auxílio para realizar esta cambalhota completa tem, entre vários problemas de credibilidade, uma impossibilidade: é que ninguém acredita que o “atleta” (Gaspar e Coelho) que se propoe executá-la seja capaz de a fazer. A dupla que grosseiros varapaus (Gaspar e Coelho) que cortaram todas as pontes de diálogo, de consenso e até de senso, não pode, obviamente, aparecer agora como uma vara flexível e agregadora. Isto é, as propostas de abertura e consenso feitas por Maduro não podem ser levadas a cabo por um governo com Gaspar e Coelho, nem serem tomadas a sério se eles partiparem delas. Como dizem os chineses, não se pode ser ao mesmo tempo dentes e língua!

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por Pespineta às 13:50

Segunda-feira, 08.04.13

Coligação 1 X PS 0

Os últimos acontecimentos acabaram por servir o Governo, paradoxalmente.

Por um lado, como notam vários blogues, deram uma justificação ao Governo para aprofundar e consolidar a transformação do aparelho de estado pela cartilha ultra-liberal. “Corte na despesa sem aumento de impostos” é uma justificação plausível para reduzir o estado social – e a culpa é do Tribunal Constitucional...

Por outro lado, a oposição racional está reduzida a Sócrates, ao domingo à noite. Os mantras da esquerda radical e a garotices de Seguro não conquistam um voto.

Finalmente, Cavaco Silva deu o selo de garantia ao governo de Passos Coelho. Sabendo como é Cavaco, quer dizer que só uma catástrofe universal (ou nem mesmo isso) conseguiria fazê-lo mudar.

Se isto é bom ou mau... só o futuro dirá.

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por Pespineta às 18:28

Sexta-feira, 22.03.13

O Governo a perigo...

Agora o Governo está mesmo em perigo, são as opiniões correntes. Colocadas da seguinte maneira: quem é contra a Coligação fala mais alto do que o costume, quem é a favor evita o assunto. Passos Coelho, hoje mesmo, na AR, defendeu a política da Coligação num tom novo: à defensiva, a justificar-se. E Seguro, reforçado pelo voto unânime da Comissão Nacional do PS (ontem à noite, à porta fechada, com os comissários a twitar em directo da sala), Seguro disse declaradamente que o Governo tem de cair. “Portugal não tem autonomia orçamental” respondeu-lhe Passos Coelho, acrescentando, “se o senhor não reconhece isto, não está pronto para governar.”

Mas isso é outro assunto; voltemos ao cenário da possibilidade do Governo cair. Não somos nós que o declaramos: está em toda a parte. Acontece que “soube-se” que o Tribunal Constitucional vai chumbar uma, quiçá duas das propostas constantes no Orçamento. Um buraco entre os 400 e os mil milhões. Ora o Governo ainda não descobriu onde irá buscar os famigerados quatro mil milhões de cortes necessários para este ano; dificilmente terá maneira de desenterrar mais receita.

Os comentadores acham que neste cenário – mais as previsões sempre erradas das execuções orçamentais e do desemprego - terá de se demitir. Ou que o Presidente da República terá de o fazer demitir-se para convocar novas eleições, ou para fazer um Gabinete de iniciativa presidencial. Todas estas hipóteses nos parecem contra-natura para Passos Coelho e Cavaco Silva, mas o facto é que a situação ficará muito difícil. Por outro lado, ninguém está a ver que medidas um Governo PS poderia apresentar. Mas ninguém anda a pensar a sangue frio, nestes tempos da peste.

Vejamos as alternativas. Passos pode demitir-se, abrindo uma crise cujo fundo não se vislumbra, pois novas eleições levarão meses a fazer-se. Passos pode ignorar a crise a continuar a sua gestão, impávido. As manifestações do 25 de Abril, que cai numa quinta feira, serão épicas, e até se podem prolongar até à quarta feira seguinte, 1 de Maio. A terceira hipótese é renovar o Governo, despedindo Gaspar e Relvas. Se ele tem realmente esta última hipótese, ouse está preso a compromissos impeditivos… é a grande dúvida…

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por Pespineta às 16:53

Quinta-feira, 21.03.13

RTP - Raios Te Partam

As situações políticas surrealistas – à falta de melhor adjectivo – sucedem-se com uma persistência descoroçoante. Quem assistiu à audição de Alberto da Ponte, o homem de mão de Miguel Relvas, na Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, viu uma situação irreal. Mendes Bota, o presidente da Comissão, apresentou os quatro representantes da RTP: Alberto da Ponte, comandante em chefe, dois sub-directores anódinos, e “o Dr. Nuno Vaz, da Direcção de Programas”. Imediatamente a deputada Inês de Medeiros perguntou quem era o Nuno Vaz, uma vez que não conhecia nenhum director de programas com tal nome.  Mendes Bota olhou outra vez para o papel, surpreendido, e Alberto da Ponte segredou-lhe ao ouvido. Ah! Tinha havido um engano. O Dr. Nuno Vaz é “gestor de comunicação” da agência Cunha Vaz & Associados, que presta serviço à RTP. Foi? Pensar-se-ia que em seguida Nuno Vaz pediria desculpa e levantar-se-ia para se ir embora, envergonhado por se estar a enfiar numa audição parlamentar numa qualidade que não tem. Ou que seria Alberto da Ponte a pedir desculpa e inventar uma justificação qualquer. Não senhor. Inês de Medeiros deu-se por satisfeita, esclarecida que estava a presença, e a comissão continuou os seus trabalhos, como se acontecesse diariamente os gestores fazerem-se acompanhar nas comissões por contratados de relações públicas.

Não comentaríamos melhor do que José Vítor Malheiros, no blogue FB4+6:

Terá sido de Mendes Bota a ideia de pôr o "dr. Nuno Vaz" a falar "pela Direcção de Programas"?

Ou essa informação - que o deputado leu de um papel - ter-lhe-á sido prestada pelo Presidente da RTP?

Será que o Presidente da RTP mentiu ao Presidente da Comissão de Ética para que este mentisse aos deputados e a todos nós?

Será que o "dr. Nuno Vaz" está a ensaiar para Director de Programas?

Será que o Presidente da RTP e o inefável ministro Relvas querem contratar a Cunha Vaz & Associados para dirigir a RTP?

Ou já a contrataram e há uma direcção-sombra na Direcção de Programas de que ninguém tem conhecimento?

Sairá mais barato que utilizar os quadros da empresa?

Ou nada disto tem importância porque o PSD, Relvas, o Governo e Alberto da Ponte têm uma licença especial para fazer o que lhes apetece e dizer aos deputados o que lhe passe pela cabeça sem dar contas a ninguém?

 

Fora este facto surrealista, não há muito a assinalar. A actual gerência tem um Plano de Desenvolvimento e Redimensionamento da RTP, recheado com as expressões idiomáticas e palavras chave do moderno marketing, como por exemplo, o facto da empresa viver num “ambiente VICA” –caracterizado pela Volatilidade, Incerteza, Complexidade  e Antiguidade.

Tirando estes floreados: vão continuar os canais todos e não vão continuar cerca de 600 colaboradores. A RTP pedirá um empréstimo de 42 milhões de euros à banca para pagar as indemnizações e gostaria que a Contribuição para o Audiovisual, paga na conta da electricidade, aumentasse alguns cêntimos para o ano. A indeminização compensatória é de 27 milhões de euros este ano e depois acaba.

Os sindicatos não concordam, claro (isto já fora da audição) e dizem que Relvas está a preparar a RTP para ser vendida. É possível, mas parece-nos que, desde que não dê despesa, a Coligação prefere continuar dona da empresa. Também nos parece que a oposição e o público acabarão por aceitar bem este modelo.

 

ÚLTIMA HORA: Nuno Santos vai processar a RTP e José Sócrates vai ser comentador!

Amanhã, desenvolvimento destas situações...

 

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por Pespineta às 17:41

Quarta-feira, 13.03.13

A democratização pode começar por aqui?

O “Manifesto pela Democratização do Regime” levantou uma natural nuvem de comentários da comunicação paralela; não só tenho visto análises bastante pormenorizadas, como novas discussões sobre a velha questão das alternativas para o sistema vigente.

Note-se que, pelo menos até hoje, não houve qualquer comentário, oficial ou oficiosa, dos partidos do “arco governamental” ou dos seus políticos, para quem o tema é dispensável, inútil ou perigoso.

 

Já houve muitas propostas do mesmo teor – a primeira com algum peso foi a da manifestação da “Geração à Rasca”, faz uns dois anos, e em que participaram movimentos como o “Um milhão na Avenida da Liberdade pela Demissão da Classe Política” (com 35 mil participantes no Facebook).

Quanto há reacção do establishement – no caso da “Geração”, lembramo-nos de que Pacheco Pereira e Rebelo de Sousa, entre outros, comentaram extensivamente -  é para levantar a ameaça do fascismo e da “anti-democracia” subjacentes às críticas dos sistemas políticos baseados em partidos.

Esta proposta sobressai pelo peso das sessenta assinaturas, que incluem nomes conhecidos de analistas independentes, ligados aos dois partidos principais, ou dissidentes dos outros. Também há nomes a quem João Gonçalves, no “Portugal dos Pequeninos”, chamou de “catástrofes ambulantes”, mas um documento que se quer com um apoio o mais abrangente possível não pode estar com critérios desse tipo.

Não será uma proposta melhor do que as outras, que tocam nos problemas de fundo – como continuar com o sistema de partidos mantendo os actuais, como misturar eleitos por partidos com eleitos individuais, e como se organizaria uma AR com blocos partidários e deputados soltos. Mas é um ponto de partida que se espera com mais futuro que os anteriores.

A sociedade civil está perder a paciência.

 

Não assinei o Manifesto, nem sei ainda se o farei, mas aqui vai o link, para quem estiver interessado:


 

http://cdn.negocios.xl.pt/files/2013-03/12-03-2013_11_58_48_Manifesto_pela_democratização_do_regime.doc.pdf

 

 

 

 


 

 

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por Pespineta às 17:11

Quarta-feira, 13.03.13

A democratização em manifesto

O “Manifesto pela Democratização do Regime” levantou uma natural nuvem de comentários da comunicação paralela; não só tenho visto análises bastante pormenorizadas, como novas discussões sobre a velha questão das alternativas para o sistema vigente.

Note-se que, pelo menos até hoje, não houve qualquer comentário, oficial ou oficiosa, dos partidos do “arco governamental” ou dos seus políticos, para quem o tema é dispensável, inútil ou perigoso.

 

Já houve muitas propostas do mesmo teor – a primeira com algum peso foi a da manifestação da “Geração à Rasca”, faz uns dois anos, e em que participaram movimentos como o “Um milhão na Avenida da Liberdade pela Demissão da Classe Política” (com 35 mil participantes no Facebook).

Quanto há reacção do establishement – no caso da “Geração”, lembramo-nos de que Pacheco Pereira e Rebelo de Sousa, entre outros, comentaram extensivamente -  é para levantar a ameaça do fascismo e da “anti-democracia” subjacentes às críticas dos sistemas políticos baseados em partidos.

Esta proposta sobressai pelo peso das sessenta assinaturas, que incluem nomes conhecidos de analistas independentes, ligados aos dois partidos principais, ou dissidentes dos outros. Também há nomes a quem João Gonçalves, no “Portugal dos Pequeninos”, chamou de “catástrofes ambulantes”, mas um documento que se quer com um apoio o mais abrangente possível não pode estar com critérios desse tipo.

Não será uma proposta melhor do que as outras, que tocam nos problemas de fundo – como continuar com o sistema de partidos mantendo os actuais, como misturar eleitos por partidos com eleitos individuais, e como se organizaria uma AR com blocos partidários e deputados soltos. Mas é um ponto de partida que se espera com mais futuro que os anteriores.

A sociedade civil está perder a paciência.

 

Não assinei o Manifesto, nem sei ainda se o farei, mas aqui vai o link, para quem estiver interessado:

 

 

 

 

http://cdn.negocios.xl.pt/files/2013-03/12-03-2013_11_58_48_Manifesto_pela_democratização_do_regime.doc.pdf

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por Pespineta às 17:03

Quarta-feira, 06.03.13

É assim que se vai tecendo a teia que nos envolve

 

Por acaso liguei a tv na altura em que a Ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, se apresentava na Comssão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

A audição da Sra. Ministra da Justiça, que não sei se tinha um tema específico, prendeu-se mais em minudências do que essências – parecia uma audição no plenário, em que os deputados vão buscar temas de ataque para efeito mediático. Mas a praxis também proporciona à “inquirida” a oportunidade de defender a sua dama perante o inimigo, à frente do grande público. Não sabemos qual é a audiência destas audições, mas não pode ser grande, dada hora do dia útil em que passa na televisão, e dado as minúcias com que o contencioso entre os partidos são esmiuçadas (obrigado, Ricardo Araújo Pereira, por ter ressuscitado o vocábulo). Que se visse, Paula Teixeira da Cruz teve dois adversários mais combativos – os restantes foram pró-forma – Ricardo Rodrigues e João Oliveira. Não trouxeram questões novas, antes levantaram questiúnculas antigas, numa insistência que até irritou a Sra. Ministra, obrigada a responder às mesmas argumentações pela quarta vez – contas dela.

João Oliveira mostra o que acontece quando um cérebro bastante simples acumula informação excessiva, com enorme persistência: entra em curto-circuito. Fala muito, repetindo as mesmas afirmações com variações gramaticais, e está mais preocupado em mostrar ao Partido que é um lutador dedicado, com o trabalho de casa refeito incontáveis vezes, do que em derrubar o inimigo. (Temos transcrições de intervenções dele que mostram uma quase dislexia verbal.) Mesmo assim, a Sra. Ministra apanhou-o em cheio, quando ele disse que tinha informações concretas de casos em juízo que deveriam estar protegidos pelo segredo de justiça. Só duas perguntas depois é que Oliveira conseguiu uma explicação implausível, mas suficiente para salvar a face.

A verdade também é que o PCP não tem grandes objecções a levantar ao trabalho do Ministério da Justiça, pois a eficiência no combate à corrupção, apanágio da burguesia, só serve para demonstrar a pureza da classe operária. Do lado oposto, o PS não tem nenhum interesse em que as negociatas da República transitem em julgado, pois delas se tem alimentado e prosperado.

Ricardo Rodrigues é outro tipo de inimigo. Culto, fala um português impecável e, não tendo um partido paranóico a medir-lhe as palavras, pode dar-se ao luxo de fazer política no pior sentido do termo “fazer política”: melífluo, suave, sem resquícios de ética e completamente sectário. Elogia quando ataca, o que é sempre um péssimo sinal de covardia e cinismo. É um adversário muito superior a Zorrinho e só o seu temperamento de difícil controle e o estilo antiquado o inibem de ser o cabeça de ataque do PS. Bem que gostaria e está disposto ao que for preciso para lá chegar.

Quanto a Paula Teixeira da Cruz, é um soco inglês embrulhado em seda. Ouve atentamente e deixa falar, já a perceber de onde vem o ataque. Depois responde com precisão cirúrgica, conhecimento dos dossiers e impaciência total para floreados dilatórios. Como se costuma dizer, não é mulher para levar um insulto para casa. Tivesse mais interesse na politiqueirice de salão, seria uma debatedora temível. Mas está na política pela eficiência, uma causa difícil.

Embora se falasse do sistema prisional, de informática e de outras minudências do funcionamento do aparelho de Estado, a audição foi apenas um episódio na luta interminável pelos valores da Ética Republicana. Para quem pode acompanhar, um prato cheio. Infelizmente os cidadãos incautos não sabem o quanto das suas vidas se joga nestas sessões.

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por Pespineta às 17:06

Quinta-feira, 08.11.12

Mais um blog?

Mas já há tantos! Ninguém lá vai...

Disseram-me isto incontáveis vezes, os meus amigos e conhecidos.

Sobre politica? Toda a gente escreve sobre politica...

Também me disseram.

Mas eu acho que tenho uma postura diferente de toda a gente.

Sou a favor do equilíbrio.

Sou contra partidarismos e, mais ainda, contra facciosismos.

Há os de esquerda, para quem a esquerda tem sempre razão e as bandeiras da esquerda são sempre desfraldadas.

E os de direita, para quem a direita tem sempre razão e as bandeiras da direita voam mais alto.

Mesquinhos e invejosos que somos, nunca admitimos que os “adversários” podem ter razão. Que as suas propostas podem ser válidas. Que os seus preconceitos tenham substância.

Não sou mesquinho nem dado a invejas. Gosto de ver os dois (ou mais) lados da questão.

Acredito que há uma verdade, entre os extremos e as vistas toldadas.

Acho que me consigo colocar de fora e ver tos dois (ou mais lados) das questões.

Com certeza que me vou enganar, muitas vezes. Não me custa nada corrigir-me nem que me corrijam.

A lógica e a razão é que valem.

Sei que me vão criticar, da esquerda e da direita.

Venham elas, as criticas.

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por Pespineta às 16:25


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